Com criar um bebé em modo desperdício zero

Está preocupada com o ambiente e disposta a consumir menos? Joana Tadeu, que co-fundou a primeira rede de curadoria sustentável do País, explica como é criar uma criança segundo estes princípios e porque temos de dar o exemplo.

Joana Guerra Tadeu é a minimalista e co-fundou a primeira rede de curadoria sustentável do País – A MONTRA / THE WINDOW. Em entrevista, deixa-nos algumas dicas para vivermos uma vida cheia de coisas boas mas sem desperdício – mesmo com um bebé.

Aos 28 anos, vive em Lisboa e é mãe de uma bebé de 9 meses, Aurora. Formada em Comunicação, foi jornalista, consultora de gestão e bancária. Agora dedica-se a divulgar um estilo de vida mais responsável e a promover o que de mais bonito e sustentável se faz em Portugal.

1. É possível ter um bebé em modo desperdício zero?

Sim, sem dúvida. E é ainda mais fácil se não levarem a expressão “desperdício zero” à letra, ou seja, se, tal como faz a nossa família, fizerem tudo o que puderem para minimizar o impacto ambiental e social do vosso consumo sem perderem as condições de segurança e conforto que querem providenciar ao vosso bebé. O nosso bebé faz lixo, mas faz muito menos do que a maioria dos outros bebés que vivem nas mesmas condições que o nosso. E o lixo que faz é livre de plástico, o resíduo mais difícil de tratar. E basta definir algumas linhas orientadoras para que isso seja possível.

2. As fraldas reutilizáveis são uma opção que recomendes?

Sim. Recomendo a utilização de fraldas reutilizáveis como isso mesmo – uma opção às descartáveis. Não é difícil gerir fraldas reutilizáveis se limitarem a utilização a ambientes controlados, como a casa e a creche. Mas levar a criança a passar a tarde no parque, a jantar num restaurante, a passar um fim de semana num hotel, ou a fazer um trekking de dia inteiro com fraldas reutilizáveis é para heróis! Não é impossível – de todo – mas significa que a probabilidade de terem que lidar com fugas no meio da rua é maior (sim, as fraldas reutilizáveis sofrem mais fugas que as descartáveis) e que se precisarem de mudar a fralda terão que transportar a fralda suja e mal cheirosa num saco até regressarem a casa. É por isso que usamos as reutilizáveis em casa – onde a máquina da roupa está a uns metros de distância do trocador – e descartáveis de bambu (sem plástico!) em passeio.

3. Qual o maior desafio?

O maior desafio tem sido, sem dúvida, gerir os presentes da família e dos amigos. Antes de a Aurora nascer escrevemos uma carta à família a explicar o que nos fazia falta e o que não precisávamos de todo; explicámos que a Aurora só iria ter à sua disposição 10 brinquedos de cada vez e que, para entrar um, teria que sair outro; explicámos que tínhamos imensa roupa minha, do meu marido e de alguns amigos; e passámos informação quanto às lojas em que seria mais fácil encontrar produtos que respeitassem os nossos valores, ou seja, em que a produção tivesse um impacto ambiental reduzido e cujas políticas tivessem em conta a responsabilidade social da empresa. No Natal repetimos algumas indicações. Ainda assim, quando a Aurora nasceu recebemos mais presentes do que pensámos ser razoável, o que, por um lado, foi incrivelmente bonito e gratificante mas, por outro, foi esmagador. Também já recebemos alguns brinquedos de plástico e com pilhas – duas coisas que decidimos que não voltavam a entrar em nossa casa pelo impacto ambiental que têm – e acabámos por aceitar conviver com dois porque a Aurora os adora! Queremos passar os nossos valores, a forma como lidamos com o consumo e os benefícios do minimalismo à nossa filha, mas não queremos privá-la de nada que a faça crescer saudável, capaz e feliz; nem queremos impedir os que a adoram de partilharem isso com ela da maneira que mais sentido lhes faz. E para a maioria de nós oferecer presentes é oferecer amor. Há que respeitar isso mas continuar a passar a nossa mensagem de que há outras formas de oferecer amor e que queremos muito que a nossa filha prefira essas outras formas a objetos que provavelmente negligenciará.

4. Tens algum conselho para os avós e tios babados?

Lembrem-se – repitam muitas vezes para os vossos botões – que o vosso tempo é muito mais valioso que qualquer objeto que possam oferecer. Estejam presentes, brinquem, convidem as crianças e os pais para atividades divertidas. Ofereçam comida pronta a recém-mamãs ou ofereçam-se para tratar da louça e roupa suja de vez em quando. Perguntem o que é preciso e disponibilizem-se para se organizarem com outros familiares para comprarem alguns apetrechos mais caros que sejam mesmo necessários. Garantam que o que oferecem é útil e será apreciado por quem recebe.

5. Qual a tua abordagem em relação à roupa?

Tanto na roupa da Aurora como na minha e na do Martim, seguimos estes passos simples, por esta ordem de preferência: cuidamos com muito carinho da roupa que já temos, trocamos roupa com outras pessoas quando sentimos vontade de renovar, compramos em segunda mão em lojas de Lisboa e online (em websites e grupos de Facebook), compramos algumas peças novas a marcas com políticas de produção transparentes que sejam éticas e responsáveis de um ponto de vista social e ecológico (principalmente roupa técnica para o trabalho do Martim e para fazer desporto), caso precisemos ou queiramos algo que não encontramos nestas lojas ou que consideramos ter um preço proibitivo, recorremos a lojas de fastfashion comprando produtos feitos em Portugal, Espanha ou outros países da União Europeia, onde, apesar de tudo, as condições de trabalho e o impacto ambiental são regulados.

6. Quais os conselhos básicos que darias a quem está a começar?

A quem está a começar a alterar hábitos de consumo no geral para produzir menos lixo recomendo que comecem por recusar tudo aquilo a que não vão dar uso (brindes, panfletos, etc.) e tudo o que é descartável e desnecessário (palhinhas, guardanapos de papel, etc.). Depois, reduzir ao máximo o lixo que levam para casa deixando de comprar água engarrafada, por exemplo, e montando um kit com sacos de pano, caixas e frascos para não trazer sacos e saquinhos das compras. Podem fazer algumas trocas simples: usar guardanapos de pano e lenços de assoar à antiga, experimentar o copo menstrual, trocar a escova de dentes de plástico por uma de bambu, preferir cosméticos e detergentes orgânicos e sólidos (mais duradouros). E, finalmente, descartar o que já não lhes faz falta de forma consciente – reparar o que tem arranjo, vender o que tem valor, doar o que não vendemos a alguém que precise, reciclar o que já não vai ter utilidade para ninguém. A quem está a pensar ter filhos ou prestes a receber o primeiro bebé em casa aconselho que comuniquem atempadamente com a vossa família para que estejam todos de acordo, que estabeleçam um número máximo de brinquedos, que experimentem as fraldas reutilizáveis depois de estarem instalados em casa e sem desconfortos pós-parto (não queiram fazer demais de uma vez só), que esqueçam as toalhitas (pelo menos em casa), o soro fisiológico em unidoses e as compressas esterilizadas (só são necessárias se houver feridas abertas), que adquiram roupas e produtos de puericultura em segunda (ou terceira, ou quarta…) mão e que diminuam a tralha. Um bebé só precisa de um sítio para dormir, não precisa de uma cama de grades, um berço, uma alcofa que encaixa no carrinho e outra extra para as sestas. A Aurora tomava banho no lavatório da casa de banho e, agora, ora toma no lava-louça da cozinha ora toma duche connosco. Lembrem-se que menos tralha, significa menos para arrumar e limpar. Por outro lado, usem tudo o que vos ajudar a gerir esta fase da vossa vida – ser mãe e pai é um desafio enorme. Peçam ajuda!

7. Quando tomaste esta decisão, como reagiram as pessoas à tua volta?

A verdade é que não obtive grandes reações. O meu marido alinhou comigo imediatamente – percebi rapidamente que tinha muito mais consciência do impacto que causamos ao ambiente do que eu! O meu pai passou a usar guardanapos de pano (pelo menos quando nós lá vamos…). A minha sogra passou a entregar-nos sopa em frascos de vidro em vez de caixas de plástico, a levar um saco de pano à padaria e a ler as etiquetas antes de fazer compras, preferindo produtos feitos em Portugal e de materiais orgânicos. De resto não ouvimos muitos comentários, mas somos alvo de muitas perguntas e testemunhámos muitas mudanças. As pessoas têm curiosidade e a grande maioria está disposta a fazer algumas mudanças. Mesmo sem falarmos sobre o assunto diretamente, dar o exemplo tem muito impacto. Quanto ao que estabelecemos sobre a Aurora as reações foram ou muito positivas – “que bom que estão a ter esta abordagem, que bom que ela vai crescer assim” – ou de completa indiferença.

8. Que lista de produtos recomendas para quem quer ter um bebé em modo desperdício zero?

Não é preciso muito para limitar o desperdício produzido por um bebé, sendo o primeiro passo limitar-nos ao essencial, acrescentando depois o que nos dá alegria:

  • uma coleção de fraldas de pano à antiga para limpar acidentes;
  • fraldas reutilizáveis modernas (muito fáceis de utilizar) e alguns acessórios correspondentes que ajudam na sua gestão (escolhemos as da Close);
  • fraldas descartáveis de bambu (usamos as da marca Bamboo)
  • uma seleção de toalhitas reutilizáveis que dão para trocar fraldas e usar como esponja de banho (também escolhemos as da Close);
  • um sabonete de azeite para o banho do bebé (compramos o da Organii, embalado em papel);
  • discos de amamentação reutilizáveis em algodão ou bambu (prefiro os mais fininhos de algodão);
  • uma tesoura de metal com pontas redondas para cortar as unhas e talvez cotonetes de bambu para limpar o coto umbilical e as orelhas;
  • uma escova de madeira e cerdas naturais macias para o cabelo (a nossa, tão bonita, é da Organii);
  • se o bebé tiver pele seca basta um óleo orgânico de amêndoas doces (recomendo o da Organii que é prensado a frio, não perdendo propriedades);
  • para gerir o leite e as sopas, muitos frascos de vidro pequenos.

Além deste essenciais recomendo algo que me tem trazido imensa alegria – um porta-bebés para manter a cria no nosso regaço o máximo de tempo possível. Escolhemos o Caboo, da Close. Acrescento ainda os brinquedos de banho da Hevea que são de borracha natural (sem plástico) e não têm furos, pelo que não acumulam fungos e bolor (mais seguros) – a Aurora adora brincar com o patinho no banho!

9. Achas que as escolas estão sensibilizadas para o tema?

As escolas estão há muito tempo sensibilizadas para o tema da ecologia, mas não necessariamente para o tema do desperdício zero que, na minha opinião, se prende muito mais com consumo e economia do que ciência e natureza. O Governo criou uma Estratégia Nacional de Educação Ambiental 2020 que prevê 16 medidas, distribuídas por três pilares essenciais: descarbonizar a sociedade, valorizar o território e tornar a economia circular; o que significa que, se tudo correr bem, vamos começar ver as escolas a tratar do desperdício e do consumo como assuntos fundamentais na formação das crianças e, sobretudo, nos hábitos que transmitem diariamente. Já comecei a contactar algumas creches por causa da Aurora e percebi que estão muito mais abertas a estes temas do que imaginava. Por exemplo: muitas estão dispostas a lidar com as fraldas reutilizáveis sem colocar problemas à partida, Mas, claro, há espaço para muito mais. Tal como na adaptação cá em casa, a sensibilização das pessoas e das organizações é um processo. E faz parte dos meus projetos profissionais ajudar o máximo possível a desenvolver esse processo.Tenho o sonho de alcançar uma disciplina sobre literacia do consumo – todos consumimos produtos, serviços e informação; todos, sem excepção, participamos nesta atividade; e ninguém nos ensina sobre como o devemos fazer nem nos provoca a refletir sobre um assunto que é tão premente na vida de todos nós desde que nascemos. Espero ajudar a mudar isso.

10. Para terminar, como se ensina uma criança a combater o desperdício?

Dando o exemplo. É assim que se ensina tudo, tanto a crianças como a adultos, não é? Dando o exemplo e disponibilizando informação.

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