Conheça quatro poetisas portuguesas para celebrar o Dia Mundial da Poesia

No dia 21 de março, celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Conheça melhor quatro poetisas portuguesas e dê o seu tributo à palavra poética, ao poema e aos poetas.

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Adília Lopes. Florbela Espanca. Sophia de Mello Breyner. Natália Correia. Quatro poetisas portuguesas para assinalar a data do Dia Mundial da Poesia. Instituída pela UNESCO, em 1999, com o objetivo de comemorar e apoiar a diversidade linguística através da expressão poética, é um bom motivo para agarrar num livro e ir para um jardim.

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Adília Lopes

Uma das mais importantes poetisas portuguesas da atualidade, Adília Lopes é o pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira. Nasceu em Lisboa, em 1960 e frequentou a licenciatura em Física, na Universidade de Lisboa, que viria a abandonar por lhe ser detetada uma psicose esquizo-afetiva.
Começa a publicar a sua poesia no Anuário de Poetas não Publicados da Assírio & Alvim, em 1984. Em 1983 começa também uma nova licenciatura, em Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Pelo meio, antes de a terminar, publica o seu primeiro livro de poesia, Um Jogo Bastante Perigoso, em edição de autor (1985). Em 2000 publica Obra, a reunião da sua poesia e, em 2003, César a César, Caras Baratas (2004) – um dos nossos favoritos, Caderno (2007), Dobra (2009), Apanhar Ar (2010), Café e Caracol (2011), Andar a Pé (2013), e Manhã (2015) são alguns dos livros que se seguem.

“Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer.”

Um Jogo Bastante Perigoso (1985).

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Sophia de Mello Breyner (1919-2004)

Foi uma das mais importantes poetisas portuguesas contemporâneas. A primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o maior prémio literário da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto. De família aristocrática, estudou Filosofia Clássica na Universidade de Lisboa, entre 1936 e 1939, sem concluir o curso. Em 1940 publicou seus primeiros versos nos Cadernos de Poesia.
A partir de 1944 dedica-se à literatura. Em 1946 casa-se com o jornalista, advogado e político Francisco Souza Tavares e muda-se para Lisboa. O casal tem cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis, entre eles, A Menina do Mar (1961) e A Fada Oriana (1964). Na sua obra alguns temas são constantes como a natureza, a cidade, o tempo e o mar. Segundo a Porto Editora, “A sua obra está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido, entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana – a primeira vez que um português venceu este prestigiado galardão”.

“Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma”

O mar dos meus olhos
Sophia de Mello Breyner

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Florbela Espanca (1894-1930)

Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 8 de dezembro de 1894, sendo batizada, com o nome de Flor Bela Lobo. Escreve o primeiro poema aos 8 anos (A Vida e a Morte) e aos 25 publica o primeiro livro. Chamou-lhe Livro de Mágoas, afinal a história da sua vida. Quatro anos depois publica Soror Saudade. Os desgostos na sua vida multiplicaram-se: três casamentos, dois divórcios, vários abortos, enamoramentos falhados, a morte inesperada e violenta do irmão. Aos 36 anos de idade, no mesmo dia em que nasceu, suicida-se. Influenciada por poetas como António Nobre ou Antero de Quental, Florbela revelou-se pouco permeável aos grupos e movimentos literários da época e construiu a sua própria estética própria. Uma estética em que o discurso poético é livre e   descomplexado.

“Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!”

Mistério
Florbela Espanca

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Natália Correia (1923-1993)

Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, ensaísta, editora, poetisa, deputada à Assembleia da República e estreou-se na ficção com o romance infantil Aventuras de um Pequeno Herói em 1945. Nasceu na ilha de São Miguel, nos Açores, e é considerada uma importante figura portuguesa da segunda metade do século XX. Vale a pena ler este artigo do Jornal Público sobre a poetisa e tentar perceber um pouco mais esta mulher que não só se afirmou pela singularidade da criação literária, como pela determinação e coragem na intervenção política

“Eu sou líquida mas recolhida 
no íntimo estanho de uma jarra 
e em tua boca um clavicórdio 
quer recordar-me que sou ária 

aérea vária porém sentada 
perfil que os flamingos voaram. 
Pelos canteiros eu conto os gerânios 
de uns tantos anos que nos separam. 

Teu amor de planta submarina 
procura um húmido lugar. 
Sabiamente preencho a piscina 
que te dê o hábito de afogar. 

Do que não viste a minha idade 
te inquieta como a ciência 
do mundo ser muito velho 
três vezes por mim rodeado 
sem saber da tua existência. 

Pensas-me a ilha e me sitias 
de violinos por todos os lados 
e em tua pele o que eu respiro 
é um ar de frutos sossegados. 

Natália Correia, in “O Vinho e a Lira”

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