“Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.”
-Fernando Pessoa, Cancioneiro-

Areia, água, um balde e uma pá.
Esta poderá ser uma “receita” simples para horas de brincadeira de uma criança pequena.
A primeira característica observável do brincar da criança é o movimento. E é esse impulso, o de agir, que move a criança a conhecer o mundo. Desde o útero que se movimenta e brinca, depois com poucos meses toma consciência das próprias mãos, do resto do corpo, começa a andar e a saltar e por aí vai na sua habilidade, descobrindo a arte de brincar.

Consoante a idade da criança, haverá brincadeiras diferentes, pois cada fase tem as suas características. O bebé pequeno vai apreciar um boneco de conforto, macio, de algodão, com pouca informação visual – vulgarmente chamado “doudou” ou “ó­ó” e por volta dos 6 meses aprecia as rocas com pequenos guizos.

Por sua vez, uma criança com 1 ano costuma gostar de bolas e brinquedos de puxar (com um cordão), que inclusivamente a estimula a caminhar já que a vai acompanhando a cada passo.

Até aos 2/3 anos, para além de carrinhos pequenos e animais (um coelhinho ou um urso, por exemplo), também adora empilhar blocos – esta é uma atividade excelente do ponto de vista psicomotor. Ao mesmo tempo que experiencia uma vivência arquitetónica, construindo pontes, torres, castelos que se constroem e desconstroem… faz, desfaz, refaz, testa­-se o equilíbrio!

Por volta dos 3 anos, porém, há uma clara mudança na atitude e interesse da criança. Agora ganha consciência de que existe ela e existem os outros, diz “eu”: chega o momento social. Uma das principais características do brincar das crianças, sobejamente conhecida, é a capacidade de imitação – no caso das meninas talvez seja mais evidente. Geralmente reproduzem a mãe a fazer um bolo, adoram brincar com bonecas fazendo famílias, organizando verdadeiros momentos de partilha com um convite para um chazinho, distinguindo quem é a mãe, o pai e o bebé… Mas também os rapazes, sem preconceitos, costumam gostar de brincar com as cozinhas, além dos clássicos comboios, camiões e foguetões.

A partir dos 4, mais ou menos, a mente criativa da criança continua a borbulhar. Chegam os amigos imaginários, a motricidade fina já se aprimorou, e poderá apreciar bastante as artes: pintura, música, modelagem, etc. Geralmente gosta de instrumentos musicais e, dado que as brincadeiras do faz ­de ­conta ficaram mais apuradas, vai querer os objetos da realidade que a rodeia em ponto pequeno: as frutinhas e vegetais que se podem cortar, as taças, os pratinhos, os camiões grandes com capota que abre, o avião cuja hélice roda, tudo como vê no mundo dos crescidos!

Aos 5 a capacidade imaginativa sofre um abrandamento, chegando a perguntar ao adulto o que é que há de fazer ou do que há de brincar. É uma altura em que poderemos dar tarefas mais dirigidas, pedindo-­lhe, por exemplo, que pinte uma casa, com determinada cor.

Brincar, com os devidos momentos de preparação, realização e conclusão da brincadeira, está visto, é o trabalho da criança. Ora, tal como para nós, adultos, deverão existir condições para o poder fazer. A qualidade dos instrumentos de trabalho – os brinquedos, portanto – deverá ser a melhor possível.

A natureza oferece-­nos muitas possibilidades de materiais para serem modelados. A areia e a terra, misturadas com água ou não, blocos de madeira, pinhas e pedras fazem as delícias dos mais pequenos. Mas, e em casa? Como podemos oferecer-­lhes o melhor quando não é viável trazer areia ou demais elementos da natureza para casa?

Um brinquedo de materiais naturais, seja de algodão, de madeira, por exemplo, ou um até de plástico, quando ecológico, poderá trazer parte dessa qualidade.

Um boneco feito a partir de algodão biológico e lã, de excedentes de madeira ou de pacotes de leite, pintado com tintas vegetais, nada tem a ver com outros feitos de poliéster ou plástico carregados de tintas tóxicas e chumbo. Os últimos, não só são diferentes ao toque como a longo prazo, por efeito de acumulação, representam um perigo para as crianças.

O efeito cumulativo das substâncias tóxicas que se vão libertando na pele e na corrente sanguínea – em especial no caso dos bebés, que tendencialmente colocam os brinquedos na boca – está cada vez mais associado a alterações ao nível endócrino, a hiperatividade e problemas de comportamento ou de aprendizagem. Finalmente, se tivermos em conta o impacto ambiental que tem um ou outro tipo de brinquedos, sem dúvida que os brinquedos ecológicos, ideais para os nossos filhos, são também os melhores para o ambiente.

Permitamos, pois, o brincar livre da criança, com a maior qualidade possível, quer de brinquedos quer de ambiente que proporcionamos. Permitamo-­nos, também, resgatar a nossa capacidade de brincar tornando-­nos parceiros e incentivadores das nossas crianças.

Promover as brincadeiras é promover um desenvolvimento saudável nos nossos filhos. A probabilidade de se tornarem adultos felizes e com gosto pela arte de trabalhar é muito maior.

Por Marta Ribeiro, Organii, para site Up To  Kids®

 

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